14/04/2011

A igreja não é um clube

Jesus disse: “Edificarei a minha igreja” (Mt 16.18). O que é a igreja? É um templo, um prédio, uma sala de reuniões, um grupo, uma multidão ouvindo um pregador? Ou seria uma turma regida por regras opressoras? Há quem pense que igreja é um clube religioso para entretenimento. Isso existe, infelizmente, mas não é o que Jesus chamou de “minha igreja”. Igreja não é o que se conhece hoje como igreja.

Jesus disse: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20). Isso é ser Igreja. O encontro de duas ou três pessoas em nome de Jesus constitui a igreja. Veja o paradoxo entre o que Jesus disse ser a igreja e o que se conhece hoje como igreja. Em qualquer lugar a igreja se faz presente quando dois ou três se encontram em nome de Jesus. A igreja não depende de local nem de quantidade. Em qualquer lugar e com pelo menos duas pessoas que tenham comunhão com Jesus e uma com a outra, ali está a igreja de Jesus.

Igreja não é clube, com sócios (membros) de carteirinhas, com mensalidades (dízimos) e com regulamentos de conduta. Igreja é a comunhão dos que amam e andam com Jesus, identificados pelo amor (Jo 13.34-35), que, movidos pela graça de Deus são generosos, dando-se inteiramente a Deus e aos outros com tudo que são e têm. Igreja é feita de gente livre que anda conforme sua consciência do evangelho. Igreja não é feita dos iguais, mas de todos que vivem “pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). Amar apenas os iguais não condiz com a igreja de Jesus (Mt 5.46-47).

Ninguém se engane: a Igreja de Jesus é feita também de gente que nunca entraria num templo evangélico nem aceitaria o estilo de vida de muitos crentes. Mesmo assim são de Deus (Lc 9.49-50). O bom samaritano era visto como um pagão, enquanto que o sacerdote e o levita eram os crentes. Mas, foi o samaritano que cuidou do ferido na estrada, enquanto os crentes religiosos passaram de lado com indiferença (Lc 10.25-37). Talvez estivessem com pressa para o culto, o ensaio da banda, a reunião da liderança, a vistoria da construção, e tantas outras coisas semelhantes que crente gosta de fazer; menos amar a Deus e ao próximo. A igreja virou lugar de entretenimento, tal qual a igreja narcisista de Laodicéia (Ap 3.14-22), e como Sardes, que tem nome de que vive mas está morta (Ap 3.1). Igreja não é clube, é vida vivida na caminhada da vida.

Igreja não é uma comunidade fixa, fechada e reclusa. Jesus nunca constrangeu ninguém a segui-lo. Ele disse: “Se alguém quiser ser meu discípulo... (Lc 9.23). Ele deu condições, mas sempre deixava as pessoas livres (Jo 6.66-69). Ser membro de uma instituição com endereço fixo, com CNPJ e estatuto, não é o mesmo que ser igreja de Jesus. A Igreja de Jesus é itinerante, presente na sociedade como fermento invisível, mas influente. A Igreja de Jesus não é como um clube conhecida apenas quando se congrega num salão, como sal no saleiro. A Igreja de Jesus é dinâmica. Jesus é o Caminho pelo qual andamos em todos os nossos caminhos (Jo 14.6; Pv 3.5-6).

Jesus não tinha complexo de clube. Ele não temia ficar sozinho. Todos lhe abandonaram, mas ele não fugiu de sua missão redentora. Ele consumou a obra que o Pai lhe confiou (Jo 16.32; 17.4). Ele ensinava e evangelizava não para ter um grupo cativo a seus pés, mas para fazer com que aqueles que o ouviam tivessem vida em abundância (Jo 10.10). Para alguns ele dizia: “Segue-me” (Lc 9.59). Para outros que queriam ir com ele, dizia: “Vai para tua casa, para os teus. Anuncia-lhes tudo o que o Senhor te fez e como teve compaixão de ti” (Mc 5.18-20). Jesus não quer alienar seus discípulos da sociedade, mas apenas que sejam livres do mal (Jo 17.15).

A etimologia da palavra “Igreja” é: “chamados para fora”. Não para fora da sociedade, mas para fora da religião e da maldade. Nossos irmãos estão por aí. Enquanto caminhamos os encontramos e seguimos juntos no Caminho do mundo real e não numa comunidade paralela fechada. A igreja é feita de gente que é de Jesus. Aqueles que não são se revelam como tais. Mas não cabe ao clube eclesiástico definir quem é ou não é de Jesus. A parábola do joio e do trigo deve ser lida outra vez (Mt 13.24-30, 36-43).

A igreja é a comunidade mais heterogênea que existe na sociedade. Ela é formada de homens e mulheres, independentemente da idade, nacionalidade, cor, condição social, acadêmica, ou econômica. A igreja é uma unidade na diversidade (Ef 4.1-16). Sempre que a igreja quis se enclausurar, adoeceu. Ela não existe para a uniformidade viciada na mesmice repetitiva de rituais e conduta padronizada. A igreja é bem mais que isso.

A igreja se congrega, mas não vive congregada. Ela precisa do ajuntamento para a adoração coletiva, para a reflexão bíblica, para considerar uns aos outros com estímulo mútuo ao amor e às boas obras, e para encorajar uns aos outros nesses dias que antecedem a volta do Senhor Jesus (Hb 10.24-25). A igreja se ajunta por um tempo, mas não todo o tempo. Quando congregados somos igreja visível, mas fora dos ajuntamentos somos pessoas como as outras na sociedade, diferenciados pelo viver em Cristo que deve exalar o cheiro de vida para aqueles com os quais convivemos (2Co 2.14-17).

A Comunidade do Caminho não existe para controlar as pessoas, nem inibir a liberdade de ninguém, ou domar a conduta de quem quer que seja. Temos uma fé comum, mas a expressão dela é única em cada pessoa. Estamos no mundo para viver plenamente para Deus. Temos consciência que não devemos julgar o servo alheio e que cada um dará contas de si mesmo a Deus (Rm 14.4, 12).

As pessoas precisam se libertar do Jesus da religião, e se converterem ao Jesus do Evangelho (2Co 11.1-4). Desejamos ver as pessoas livres do peso maléfico da religião, pois o jugo de Jesus é suave e o seu fardo é leve (Mt 11.28-30). Além disso, seus mandamentos não são pesados (1Jo 5.3). Entre nós fica quem quer. Ninguém nos deve nada se parar de andar conosco. Estamos convictos de que a igreja é feita de gente livre, inclusive para entrar e sair. Amar a Deus e ao próximo resume tudo (Mt 22.37-40). Sem isso não existe igreja e sim um clube, e disso queremos distância. Não vivemos em função de uma sigla, uma denominação, uma instituição. Não queremos aparecer bonitinhos para ninguém, queremos sim, amar a Deus, viver para o seu agrado, amar todas as pessoas indistintamente, e vivendo de um modo digno do evangelho de Cristo (Fp 1.27). Não somos melhores que ninguém, pois temos consciência que fazemos parte dos piores salvos pela graça de Deus (1Tm 1.15).

Antonio Francisco - Cuiabá, 14 de abril de 2011 - Voltar para Um novo caminho.