12/11/2010

À margem do caminho

Ao sair da cidade de Jericó com seus discípulos e numerosa multidão, o mendigo Bartimeu, assentado à beira do caminho clamou a Jesus pedindo compaixão. Muitos o repreendiam para que ele se calasse; mas ele cada vez gritava mais. Jesus parou e mandou chamá-lo. Ele jogou sua capa fora, levantou-se de um salto e foi ao encontro de Jesus que lhe perguntou o que queria. Ele pediu para tornar a ver.

Jesus viu fé em Bartimeu, o que foi diferencial em sua cura imediata. Depois disso ele o seguiu estrada a fora (Mc 10.46-52). A mudança na vida de Bartimeu tem muito a nos ensinar.

Um dos maiores problemas de nossa vida moderna, tanto individual quanto coletiva, é a falta de confiança. Pouca gente confia em alguém ou em algo. Há uma sensação no ar, e mais que isso, dentro da gente, de que o trem da vida está andando fora dos trilhos. Essa incerteza gera insegurança em todo o nosso modo de viver. Ninguém consegue viver bem com hesitação, mas é assim que vivemos. O que seria anormal, faz parte de nosso modo ordeiro de viver. Nas palavras de John Stott: “Uma promessa não é suficiente; precisamos de um contrato. Portas não bastam; temos que fechá-las a chave a aferrolhá-las. O pagamento de taxas não é suficiente; temos que receber recibos que são perfurados, inspecionados e recolhidos. A lei e a ordem não chegam; precisamos da polícia para reforçá-las. Todas estas coisas – e muitas mais – com as quais ficamos tão acostumados a ponto de admiti-las naturalmente, são devidas a nosso pecado. Não podemos confiar uns nos outros. Precisamos nos proteger uns contra os outros. É um estado de coisas para se lamentar”.

O jeito de viver da cristandade já não convence que esse é o caminho no qual devemos andar. As pessoas vivem sem direção, sem alvo, sem meta, sem motivação. A vida virou uma mesmice. Olhar para cima ou para baixo já não faz diferença. Quando Deus não é nossa razão de viver, ou seja, quando deixamos de olhar firmemente para Jesus como Autor e Consumador da fé (Hb 12.2), tudo fica no mínimo trincado. Deus “pôs a eternidade no coração do homem” (Ec 3.11); ele precisa de empolgação para olhar para frente. O presente só faz sentido, se juntarmos a ele o passado e o futuro. Mas, que significado tem tudo isso se para a maioria o passado é lamentável e o futuro é uma incógnita! Até que Jesus seja o caminho de nossa vida, a vida fica à margem da realidade. Tudo acaba ficando repugnante, rotineiro, enfadonho e vazio. Quem vive apenas em razão do momento que passa sem conhecer os valores eternos, ainda não conhece o Caminho. Há um caminho para tudo, há um caminho para viver.

Qual o significado da vida? A nossa vida depende da resposta que temos para essa pergunta. O sentido da vida depende do que Deus diz da vida. Fomos criados por Deus para cumprir seus propósitos. Ignorar isso é ignorar a razão de viver aqui e na eternidade, pois, tudo foi criado por meio de Cristo e para Cristo (Cl 1.16). Em meio a toda essa confusão existe o Caminho. Nele, a vida faz sentido e somente nele. Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Ele não é um caminho, uma alternativa, uma opção. Ele é o Caminho para a totalidade da vida individual e coletiva. O Caminho envolve tudo em nossa vida. Jesus é o Caminho para tudo e para todos, em toda a parte e em todas as circunstâncias.

A vida é um todo. Essa falta de totalidade na vida tira a vibração de viver. O caminho aplica-se a tudo ou não inclui nada. Essa mania de dividir a vida em várias partes é um modo claro de saber que ainda não andamos no Caminho. O caminho é tudo ou o caminho é nada. A diversidade do viver deve incluir tudo na unidade da vida. Precisamos conhecer a chave da vida; ela existe. Até que encontremos o caminho da vida, o que chamamos de vida não passa de morte na existência pálida do dia a dia.

Falta coesão na vida. Sem liga tudo se desmonta. A grande maioria vive como uma colcha de retalhos; não existe harmonia no todo da vida. Representar é tudo o que muitos conseguem fazer, porque ainda não descobriram como viver. Sair do gueto onde foram criados é catastrófico para muitos que não se seguram em seus frágeis fundamentos feitos de suposições, crendices e teorias. Não é sem causa que as doenças nervosas crescem em nossos dias. Estudos atestam que mais de oitenta por cento dos leitos hospitalares são ocupados por pessoas que sofrem de doenças nervosas e mentais, as chamadas doenças psicossomáticas. Isso sem falar de tantos outros que não são tratados e vivem semivivos se arrastando à margem do caminho, vivendo pela metade.

As pessoas estão perdidas, sem rumo, sem norte, sem nenhum horizonte. Vivem por viver, buscando experimentos cotidianos atrás de algo que os preencha, andando por caminhos tortuosos. Mas, conscientes ou não, todos buscam encontrar o caminho da vida. A sensação de perdição é inconfundível. Muitos se sentem envoltos em um redemoinho de perdição (Pv 1.27). A libertinagem frouxa na qual vivem tantos, os conduzirá à perdição (Mt 7.13). Quantos serão chamados filhos da perdição além de Judas? (Jo 17.12). Quantos serão enterrados com seu dinheiro para a perdição? (At 8.20; 1Tm 6.9). Não há como negar que o destino de muitos é a perdição (Fp 3.19).

Mas, Jesus veio buscar e salvar o perdido (Lc 19.10). Feliz o dia para alguém que pode confessar para Deus: “Ai de mim! Estou perdido!” (Is 6.5). O perdido pode ser achado, o desgarrado pode voltar para casa (Lc 15.24). A nostalgia é a grande enfermidade da humanidade. A saudade de casa atinge a todos que vivem desgarrados andando pelos próprios caminhos (Is 53.6). A certeza da bondade e da misericórdia de Deus nos seguindo todos os dias de nossas vidas em direção à casa eterna do Pai celestial, é tudo o que nossa alma anela (Sl 23.6). Ninguém se sente em casa em lugar nenhum.

Não estar no Caminho é o caos na travessia desta vida para a vida eterna. Estar no Caminho nos dá segurança. O piloto do avião não teme as negras nuvens quando seguro de estar no caminho traçado para o vôo. Fora do raio de vôo ele teme nuvens e tempestades. Assim é na vida. Podemos agüentar qualquer coisa quando seguros de estarmos no Caminho. A pergunta é: podemos nos assegurar disso?

Será que essa certeza não passa de uma imposição doutrinária, dogmática? Não seria essa certeza, se é que podemos realmente tê-la, uma daquelas maluquices religiosas? Quem pode ter essa certeza de estar no Caminho, se é que ele existe?

O Caminho existe. Não se trata apenas de uma força de expressão. Ele liberta, dá segurança por dentro e capacita a viver para fora em tudo que diz respeito a vida. Ele é verificável, experimental. Quando passamos a andar no Caminho, não existe mais dúvida que ele realmente existe. O Caminho não tem retorno. Quem quer que nele ande não deseja jamais voltar, não olha para o retrovisor; tamanho é o encanto do horizonte que se vislumbra pela frente.

O Caminho não é vivido de argumentos, mas de experiências; verdadeira aventura viva. Quando alguém conhece o Caminho, tudo o mais se relativiza em relação a ele. A vontade, a decisão, e a disposição, são de trocar tudo pelo Caminho (Mt 13.44-46; Fp 3.8). Porém, é preciso querer (Lc 9.23). Sem isso, a vida continua à margem do Caminho. Mas, a boa notícia é que o Caminho estar acessível a todos. Quem andar nesse caminho jamais errará, nem mesmo o louco (Is 35.8).

Você ainda lembra-se de Bartimeu, mencionado no início? Todos nós temos algo em comum com ele. Todos estão como Bartimeu à margem do caminho da vida, esmolando para sobreviver. Não importa a aparência de felicidade que alguém aparente; sem andar no Caminho, todos estão à margem do único Caminho, “porquanto, há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (1Tm 2.5). Não se engane: “Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte” (Pv 14.12).

Portanto, “quando te desviares para a direita e quando te desviares para a esquerda, os teus ouvidos ouvirão atrás de ti uma palavra, dizendo: Este é o caminho, andai por ele” (Is 30.21).

Antonio Francisco - Cuiabá, 12 de novembro de 2010 - Voltar para Um novo caminho.